Dia 14. Primícias

1 Coríntios 15:23 – “Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda.”
Levítico 23:10 – “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando houverdes entrado na terra, que vos hei de dar, e fizerdes a sua colheita, então trareis um molho das primícias da vossa sega ao sacerdote;”

Existe hoje uma moda chamada de desapego, um convite ao minimalismo, que passa por destralhar a casa de tudo o que é secundário, reduzindo roupas, utensílios e até livros (livros!), ficando com o que é considerado essencial. Razando a minha opinião acerca do conceito de minimalismo, a teoria desse chamado desapego é algo com que me identifico, ao mesmo tempo que na decoração da casa, serei tudo menos minimalista. Os meus olhos pedem conforto na combinação de coisas, e estantes livres iguais a exposições do Ikea, nunca serão a minha linha. Bom, mas não é de conceito estético que o povo israelita era chamado a fazer aquando da festa das primícias. Eles eram, de facto, chamados ao desapego, no sentido em que eram convocados a dar dos primeiros frutos das suas colheitas, sendo que nada poderiam colher e comer do restante, sem esta primeira oferta. A ideia desta primeira oferta residia debaixo do princípio de que ela não seria usada em benefício próprio. Era uma instrução divina para ensinar o povo na dependência de Deus. Num tempo em que a sobrevivência dependia directamente dos frutos da terra e dos animais que eram criados, oferecer os primeiros frutos, fosse a colheita escassa ou generosa, era um gesto de confiança de que o que era ofertado não lhes faria falta. Enquanto que na moda do desapego, as pessoas escolhem ficar com o essencial, a oferta das primícias significava poder ficar com muito menos que o essencial e viver alegremente com isso.

É por isso que Paulo, quando escreve bem mais tarde à igreja de Corinto, usa esta ilustração acerca de Cristo. Para que não haja qualquer dúvida de que a ressurreição de Cristo cumpriu a festa das Primícias, Paulo diz explicitamente que Cristo é as primícias daqueles que serão ressuscitados dos mortos. Assim como as primícias oferecidas a Deus na antiga aliança antecipavam a colheita mais plena que viria, a ressurreição de Jesus antecipou a ressurreição corporal do seu povo. Por causa do pecado de Adão, o homem morreu espiritualmente e tornou-se sujeito à morte física. Da mesma forma, por meio de Cristo, os crentes recebem vida espiritual e serão ressuscitados fisicamente. Esta é a esperança que também vivemos no Natal. Continuamos a experimentar morte física, mas um dia todos aqueles que já morreram mas descansaram no Senhor, serão ressuscitados com ele.
Hoje, somos chamados à mesma dependência, trazendo o princípio das primícias para a nossa vida. Desde o nosso acordar ao nosso deitar, somos chamados a viver confiantes na providência de Deus, fazendo boa mordomia dos nossos dons e recursos, sendo fiéis nos nossos dízimos, generosos com os que nos rodeiam, e desimpedidos de tudo o que nos afasta de sermos luz deste mundo. E se a morte chegar, descansamos na certeza de que a eternidade nos aguarda.