Presépio

Os natais da minha infância eram muito simples, o dia 24 era passado exactamente com a mesma família que o dia 25: o avô Edgar, a avó Zé, a avó Anjos, a tia Lena (e mais tarde, o tio Luís), os meus pais, os meus quatro irmãos, e eu. Muitas vezes, tínhamos alguém que não era da família a juntar-se também. Era só e era tranquilo.
Ficávamos sempre em Lisboa e o dia 25 tinha como ponto alto a ida ao culto natalício na Igreja, com a roupa nova recebida na Consoada. Era uma festa!
Como éramos cinco irmãos, geralmente as refeições eram passadas na casa dos meus pais mas, por vivermos na mesma rua, íamos parar a casa da tia Lena com frequência.

Na casa da tia, onde tudo estava ordenado e decorado de uma forma irrepreensível, existiam duas coisas que me atraíam muito: uma boneca Pipi das meias altas e um presépio, em destaque. Ali, não se podia correr nem tocar, e entre as idas à casa de banho ou ao quarto onde estava a Pipi, espreitava aquele conjunto de peças que, ora imaginava todas pintadas tal qual o Topo Gigio que saía no Toddy, ora pensava em mexer e brincar.

Maria, José, Jesus e os animais, a lembrarem a noite mais bonita de todo o sempre. A noite que anunciaria a chegada do Messias prometido, que viria em resgate de pecadores como eu.

Chegar a esta época é lembrar todos os outros que nos antecederam e que já cá não estão, e os que entretanto chegaram. Entre os que vão e os que chegam, aqui está o presépio, agora mudado para a casa dos Cavacos. Lembrando que o mundo todo passa, menos o nosso Deus.