Eu sou muito mais do que o que faço.

𝐄𝐮 𝐬𝐨𝐮 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐝𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐟𝐚𝐜̧𝐨. 𝐄𝐮 𝐯𝐨𝐮 𝐬𝐞𝐫 𝐪𝐮𝐞𝐦 𝐃𝐞𝐮𝐬 𝐪𝐮𝐞𝐫 𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐮 𝐬𝐞𝐣𝐚.- Junho de 2007

Uma das vantagens (ou desvantagens) de ter por escrito aquilo que vou sentindo, vendo, ou achando, é que posso recuar no tempo e fazer um exercício de auto-análise. Isto serve para me deliciar ou me embaraçar (ambas são muito frequentes, e às vezes tenho vontade de apagar aquilo que mais me constrange, mas não o faço. Isso ajuda-me a acompanhar mulheres que vão nessa fase da vida, e a relembrar-me).

30 anos acabadinhos de fazer. Grávida do terceiro filho. Lendo aquilo que escrevi, quando resolvi ficar temporariamente em casa, até parece que eu estava cheia de maturidade e convicção. Não estava. Entre o alívio de me poder dedicar por um ano ou pouco mais aos meus três filhos sem pressões exteriores, a expectativa de como seriam os meus dias, o meu interior sabia que as lutas seriam imensas. A minha cabeça estava feita para produzir, sair, alcançar. Os meses que se seguiram foram talvez os mais desafiadores da minha vida.

Contrariei todos os meus instintos e saía de casa todos os dias – ficar em casa era sinal de que eu nada fazia. Em menos de nada, tornei-me freelancer – e não era só a urgência de um salário mais, era mesmo a minha necessidade em acreditar de que não ia ficar burra para sempre, a trocar fraldas e a cozinhar.

Tentei provar a mim e a todos que eu “não estava sem fazer nada”. Como se precisasse de provar alguma coisa a alguém que não a Deus. Verti imensas lágrimas numa solidão imensa, que foi minimizada por amigas que conheci na internet – não havia ninguém na família, igreja ou amigos próximos na mesma condição (abençoadas!).

Os anos foram passando e Deus mostrou-me mesmo que a minha identidade não está no que eu alcanço. Hoje, aquilo que eu faço reflecte quem eu sou – já nem me passa pela cabeça justificar o meu trabalho dentro ou fora de casa – e aprendi a aceitar cada momento e fase com os seus desafios, mesmo que sejam diferentes ou fora da norma. Ser quem Deus quer que nós sejamos não é uma via de caminho único nem tem manual de instruções. Que caminho este, com quase 15 anos!