Morrer de fome

Lembro-me de chegar esbaforida a casa e dizer: “Estou a morrer de fome!”. No imediato, um riso trocista da minha avó (ou da minha mãe): “Tu sabes lá o que é fome, tu tens vontade de comer…” dito em tom de condescendência, alívio e repreensão.

Do alto da minha infância, não sabia o que era fome. Na verdade, faço parte do grupo privilegiado de pessoas que nunca experimentaram o desespero de não ter o que comer (ao contrário da minha avó e da minha mãe).

Por isso, quando criança, os meus níveis de saciedade estavam tão pouco calibrados que, chegando de um dia cheio de escola e brincadeiras, achava que estava a “morrer de fome”.

Nestes dias em que caminhamos para a lembrança da Páscoa, recordo aquele que se disse ser o Pão da Vida. Com ele, vivemos constantemente a ser saciados. Aliás, sem ele mesmo, vivemos meio tontos em busca de tanta coisa, iludidos. Ficamos momentaneamente distraídos, mas no fim das contas desalinhados, desequilibrados, descontentes, desorientados.

Precisamos ser direcionados, dirigidos, devolvidos aquele que nos criou, para si. Lembrando aquele que se deu para morrer por nós.

– Livra-nos, Senhor, de nós mesmos. Para onde iremos nós? Só tu tens as palavras de vida eterna! –