Sentidos e enganos

Foi através do olfacto (e antecipação do paladar) que Esaú desprezou a bênção que lhe era destinada. E foi pelo olfacto, tacto, audição e paladar que Jacó engana o seu pai, já quase sem visão. Tal como a fome (e muito egoísmo) trouxe uma realidade distorcida das coisas para Esaú, a falta de visão impossibilitou Isaque de perceber o engano. Os sentidos ajudam-nos a ler a realidade.

Ontem estive duas horas sem encontrar o meu aparelho auditivo. Primeira vez que me aconteceu (e última, espero) em quase um ano de uso. Nessas quase duas horas, tive tempo para arrastar tudo o que era móvel na minha casa, amaldiçoar a gata, e fazer diversos tipos de orações ao céu. Dei comigo a imaginar a continuação destes dias já sem ouvir da nova forma que aprendi (porque ter um aparelho não é ouvir igual, é aprender uma nova forma de o fazer) e uma enorme vontade de cancelar a vida. Dei comigo numa espécie de desistência de: não vou conseguir. Foi no instante em que me rendi à ultima tentativa de calçar umas luvas e vasculhar um caixote cheio de lixo, que o encontrei, ainda a funcionar.

A minha realidade – para já – foi reposta, mas nunca mais olharei para esta história cheia de sentidos e enganos da mesma maneira.